segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Os Nomes de Criança




Os esquimós têm diversos nomes para indicar a neve. Para eles, cada tipo de neve é uma coisa diferente de outro tipo. Para os povos da floresta, cada mato tem um nome específico. Os habitantes dos desertos têm nomes diferentes para dizer areia, conforme as características específicas que ela apresenta. Para conviver com seu meio ambiente, cada povo desenvolve sua cultura com palavras distintas para diferenciar as sutilezas do seu mundo. Quanto mais palavras distinguindo as coisas que a rodeiam, mais rica é a cultura de uma população.

Os brasileiros urbanos desenvolveram sua cultura criando nomes especiais para diferenciar o que, para outros povos, seria apenas uma criança. Para poder circular com segurança nas ruas de suas cidades, os brasileiros do começo do século XXI têm maneiras diferentes para dizer criança. Não se trata dos sinônimos de indicam uma sutil diferença no tipo de criança.

O português falado no Brasil é certamente o mais rico e o mais imoral dos idiomas do mundo atual no que se refere à definição de criança. É um rico vocabulário que mostra a degradação moral de uma sociedade que trata suas crianças como se não fossem apenas crianças.

Menino-na-rua significa aquele que fica na rua em lugar de estar na escola, em casa, brincando ou estudando, mas tem uma casa para onde ir diferenciado sutilmente dos meninos-de-rua, aqueles que não apenas estão na rua, mas moram nela, sem uma casa para onde voltar. Ao vê-los, um habitante das nossas cidades os distingue das demais crianças que ali estão apenas passeando.

Flanelinha é aquele que, nos estacionamentos ou nas esquinas, dribla os carros dos ricos com um frasco de água em uma mão e um pedaço de pano na outra, na tarefa de convencer o motorista a dar-lhe uma esmola em troca da rápida limpeza no vidro do veículo. São diferentes dos esquineiros, que tentam vender algum produto ou apenas pedem esmolas aos passageiros dos carros parados nos engarrafamentos. Ou dos meninos-de-água-na-boca, milhares de pobres crianças que carregam uma pequena caixa com chocolates, tentando vendê-los mas sem o direito de sentir o gosto do que carregam para os outros.

Prostituta-infantil já seria um genérico maldito para uma cultura que sentisse vergonha da realidade que retrata. Como se não bastasse, ainda tem suas sutis diferenças. Pode ser bezerrinha, ninfeta-de-praia, menina-da-noite, menino ou menina-de-programa ou michê, conforme o local onde faz ponto ou o gosto sexual do freguês que atende. E tem a palavra menina-paraguai, para indicar crianças que se prostituem por apenas um real e noventa e nove centavos, o mesmo preço das bugigangas que a globalização trouxe de contrabando, quase sempre daquele país. Ou menina-boneca, de tão jovem que é quando começa a se prostituir, ou porque seu primeiro pagamento é para comprar a primeira boneca que nunca ganhou de presente.

Delinqüente, infrator, avião, pivete, trombadinha, menor, pixote: sete palavras para o conjunto da relação de nossas crianças com o crime. Cada qual com sua maldita sutileza, conforme o artigo do código penal que lhe cabe, a maneira como aborda suas vítimas, o crime ao qual se dedica. Podem também, no lugar de crianças, ser boys, engraxates, meninos-do-lixo, recicladores-infantis, de acordo com o trabalho que cada uma delas faz.

Ainda tem filhos-da-safra, para indicar crianças deixadas para trás por pais que emigram todos os anos em busca de trabalho nos lugares onde há empregos para boias-fria, nome que indica também a riqueza cultural do sutil vocabulário da maldita realidade social brasileira.

Ou os pagãos-civis, vivendo sem registro que lhes indique a cidadania de suas curtas passagens pelo mundo, em um país que lhes nega não apenas o nome de criança, mas também a existência legal.

Como resumo de todos estes tristes verbetes, há também criança-triste: não se refere à tristeza que nasce de um brinquedo quebrado, de uma palmada ou reprimenda recebida, ou mesmo da perda de um ente querido. No Brasil há um tipo de criança que não apenas fica ou está triste, mas nasce e vive triste seu primeiro choro mais parece um lamento pelo futuro que ainda não prevê do que um respiro no novo ar em que vai viver, quando pela primeira vez o recebe em seus diminutos pulmões. Criança-triste, substantivo e não adjetivo, como um estado permanente de vida: esta talvez seja a maior das vergonhas do vocabulário da realidade social brasileira. Assim como a maior vergonha da realidade política é a falta de tristeza no coração de nossas autoridades diante da tristeza das crianças brasileiras, com as sutis diversidades refletidas no vocabulário que indica os nomes da criança.

A sociedade brasileira, em sua maldita apartação, foi obrigada a criar palavras que distinguem cada criança conforme sua classe, sua função, sua casta, seu crime. A cultura brasileira, medida pela riqueza de seu vocabulário, enriqueceu perversamente ao aumentar as palavras que indicam criança. Um dia, esta cultura vai se enriquecer criando nomes para os presidentes, governadores, prefeitos, políticos em geral que não sofrem, não ficam tristes, não percebem a vergonhosa tragédia de nosso vocabulário.

Quem sabe não será preciso que um dia chegue ao governo uma das crianças-tristes de hoje, para que o Brasil torne arcaicas as palavras que hoje enriquecem o triste vocabulário brasileiro e construa um dicionário onde criança... seja apenas criança

(texto de Cristovam Buarque, O Globo em 25/09/2000).

13 comentários:

Anne Carol! disse...

muito interessante teu post! realmente para criança tem que falar como criança! conheço pequenas mininas que se comportam ja como mocinhas de 14 anos..e eolha que são bem novinhas mesmo!
o mundo de hj ta muitooooooo diferente doq era a uns 2 anos atras.. como é possivel?!

perplife disse...

Toda criança é criança, mas nem toda criança é como criança. Devido a fatores éticos e sociais, físicos e psicológicos, várias crianças se distinguem, formando várias classes de crianças. O sentido desses verbetes peca ao colocar o significado de uma classe de criança como pejorativo.
E essas palavras, a meu ver, não se tornarão arcaicas, assim como a maldade no mundo. É a natureza humana, é o mal de cada um, que faz a sociedade. Criança é um ser puro. Para que uma criança seja apenas criança, o país deve ser puro o suficiente, o que perdemos quando crescemos. Eu gostaria que fosse diferente, pois detesto ver um rosto triste de uma criança, mas, infelizmente é o que eu acho.
Abraço
perplife.blogspot.com

Will disse...

nossa belo texto , bela critica social também. as crianças de hoje estão em mundo onde tudo acontece muito rapido, pequenos que refletem e falam como adultos.

Yullia Marizia disse...

Nossa, pensei que o texto ia tratar de outro assunto. Me surpreendi.
Parabéns, belo texo.

Kadu disse...

ola pri, exelente texto. Quanto ao post, acho que no brasil se tem, uma visão muito radical das coisas. Enquanto não tomarmos providencias em melhorar as infraestruta de nossa sociedade, vamos ver muitos desses nomes por ai..Estamos na epoca certa de dizer o que queremos nessas eleicoes...para isso temos que votar consiente...
deus abencoe

www.espiritoemverdade.blogspot.com

Girlane Moreira disse...

'construa um dicionário onde criança... seja apenas criança'

Muito bom, valeu Cristovam

Beijo, Pri

Sandro Batista disse...

Que maravilha de texto do Cristóvam! Sem dúvida alguma, uma reflexão profunda, que nos envereda pelo caminho dos problemas sociais, educacionais, um triste retrato da realidade brasileira, que é mascarada por projetos e iniciativas eleitoreiras, que são apenas para nos enganar.
O pior, é que nós de fato nos enganamos. E por que queremos, porque é só dar dois passos na rua, que nos deparamos com a cruel realidade que não aparece nos programas eleitorais gratuitos!

http://estacaoprimeiradosamba.blogspot.com/

Meu momento mulherzinha disse...

Obrigado pelo carinho flor!

Estou te seguindo também, volte sempre que quiser!

Hiper beijo :)

Rico Cheng disse...

Ótima escolha Pri, tudo à ver com a nossa realidade. A infância hoje em dia não é aquela vivida por nós a 20 ou 30 anos atrás. Perdemos os valores, não se respeita mais as crianças como se deveria. É triste...
Muito bom o texto Pri. Abração!

Rico Cheng

Carlos Lima disse...

Gostei do Post, ainda tenho saudades dos tempos de criança, antigamente tudo era bom, haha, tenho 31 ...rs eitah tempo

Victor Pagani disse...

Muito bom o post, ótimo assunto! Estou também aqui para retribuir sua visita e volte sempre!

[]'s
Victor Pagani
blog.avoado.com

Leticia disse...

Adorei o post,está de parabens !
Estou ajudando uma amiga minha com a divulgação do blog dela, ficarei grata se puder seguir e comentar !
http://gihcamp.blogspot.com/

Rico Cheng disse...

OLÁ PRI, SE VC QUISER FAZER UM INTERCÂMBIO DE MATÉRIAS, OU SEJA, EU POSTO ALGUMAS DAS SUAS NO MEU BLOG E VICE-VERSA EU TOPO. QUE ACHAS?

AGUARDO RESPOSTA.